domingo, 4 de março de 2012

Reabertura do Teatro Serrador

Aurélio de Simoni está no projeto de reforma do teatro Serrador com a Cia Alfândega 88. A reabertura do teatro será amanhã com o maravilhoso espetáculo "A alma imoral" com iluminação do mestre! A reabertura do Teatro Serrador é um importante marco na história do teatro carioca. Confiram a programação no site, vamos ao teatro!


 INGRESSOS:
R$20 (inteira) | R$10 (meia) | R$5 (classe artística e estudantes de teatro)
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA:
18 ANOS

RESERVAS PELO E-MAIL alfandega88@hotmail.com

TEATRO SERRADOR: Rua Senador Dantas, 13 – Cinelândia.
Bilheteria: (21) 2220-5033
 

MAIS INFORMAÇÕES: http://www.alfandega88.com.br/

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A arte de "descolar a platéia do encosto da cadeira"

Dizia Lorca: teatro são duas tábuas e uma paixão. Aurélio, completando-o, diz que teatro são duas tábuas, uma paixão e uma platéia, dizendo que "a razão do teatro não está no palco, está na platéia".

Aurélio diz que o uso dos efeitos de luz instiga a curiosidade do espectador, se exige dele o reciclar de sua leitura do espetáculo, de forma que ele se descola da cadeira saindo da recepção passiva para a recepção ativa. "É preciso estimulá-lo a receber esta nova informação."

Para que o público flutue com a luz, para chamar sua atenção para o efeito, mas não muito, descolando um pouquinho o espectador da cena, Aurélio revela um princípio básico da operação de luz: "tornar presente a luz que entra para começar a sair com a luz que está em cena". Assim, apontando o foco da luz que vai entrar, ela já estará em cena quando a geral for saindo.

Essa atenção especial à nova informação que um efeito de luz traz faz com que o espectador se afaste do encosto da cadeira e incline o corpo e o interesse em direção ao palco, buscando decifrar os mistérios daquela cena.

Aurélio conta que, da cabine de operação, repara a movimentação do público sentado a cada novo efeito operado em cena. Conta também que, no início de sua profissão, estava operando uma luz de Jorginho num espetáculo em que havia uma coroação de um rei. Nesse momento, não havia nenhuma mudança de luz, Então, por conta própria, acendeu um dia um pino na hora que a coroa era colocada na cabeça do rei, e pela primeira vez, o público aplaudiu. Aí, Aurélio percebeu o poder da luz para transformar uma recepção passiva numa recepção ativa.

Afinal, "toda nossa criação é voltada para o ponto de vista. A razão do que fazemos não está no palco, está em quem nos vê".

sábado, 19 de novembro de 2011

"Tudo informa luz"



Aurélio de Simoni conta que em 1979 fez sua primeira luz de teatro adulto, em "Ponto de Partida" (Guarnieri). Tinha um momento âmbar e quando o personagem ia subindo a montanha, ele projetava um luz azul na parede, e o corpo do ator, interceptando essa luz, projetava uma sombra nesta parede azul. Escondeu a fonte de luz para ficar mais mágico. Jorginho foi, e Aurélio perguntou o que ele achou deste momento da luz azul, e Jorginho perguntou: Porque azul? E ele pensou e disse: para ficar bonito. Aí Aurélio entendeu que uma luz deve ajudar na locução da cena e não ser um efeito separado dela. "Devia ter continuado no âmbar".



Aurélio disse que não existe luz certa e luz errada. Existe gostei e não gostei, e como sua mãe lhe dizia, gosto não se discute. Falou que com luz, trabalha-se com linguagem subliminar e que existe também a luz crítica que gera o riso. Acrescentou luz errada seria a de cuja leitura é independente da linguagem do espetáculo, o efeito pelo efeito. Disse que no teatro há um cara com a batuta na mão, o maestro – que tem a partitura – enquanto os músicos têm apenas sua parte, e que este maestro é o diretor. Luz não é um exercício particular. Trabalhando-se com teatro se trabalha com a imponderabilidade e não existe matemática, existem formas.



"O teatro é uma arte coletiva por excelência".



Falando do passo a passo da criação, Aurélio ressaltou três ações do ofício do iluminador.



1- Solicitar o texto. O autor propõe através de rubricas situações de luz. Está no texto a informação de que se é um drama, um besteirol, uma comédia em pé... Está no texto as passagens de tempo, como em "Esperando Godot", em que anoitece rapidamente ou há um hiato de tempo entre o dia atual e o próximo dia. O autor informa luz. Que autor é esse? É contemporâneo? É de que época? Um Brecht, por exemplo, pede uma luz sem cor, para manter o público distanciado, para não enlevar ninguém. Aurélio diz ser muito intuitivo.



2- Vou trabalhar com que diretor? Uma luz para Celso Nunes é completamente diferente do que uma luz para Amir Haddad. Alguns diretores falam "Ah, é o Aurélio que vai fazer a luz?" e aí deixam tudo por conta dele. Outros diretores falam "Aurélio, vamos conversar". Aurélio prefere os que falam "vamos conversar". Porque por mais tempo de calçada que ele já tenha, é importante saber dos anseios e das necessidades do diretor para com a peça. Senão ele tem que esmiuçar a cabeça daquele cara para saber que luz fazer. "O Moacir Chaves fica comigo na cabine." Diz que quem não conhece os dois vai achar que estão brigando, mas que é o diálogo deles que trabalham juntos há vinte anos. Em 'Labirinto' tinha um momento que a Adriana ia cantar, Aurélio pôs uma contraluz rosa. Moacir disse "você vai colocar esse rosa viado?" Aurélio respondeu "vou!". Diz que ambos fazem um trabalho conjunto, o que lhe dá muita satisfação ao chegar ao resultado. Lembra da montagem de Macbeth, em que usou apenas 60 micropares. "Era um breu". Aurélio diz aos diretores "Confia no meu tato". Diz que é preciso ter psicologia para lidar com pessoas de teatro, que costumam ser mais corajosas. Hoje, o termo direção geral traduz melhor a idéia do diretor como o maestro da grande orquestra que é o teatro.



3- Ver o ensaio – o grande ato da criação. É quando o iluminador tem contato com o materializado e com a distribuição da cena na cenografia. "É o grande arco e tem várias flechas" pois é quando se tem o contato com a cenografia, com o figurino, com a música, com os adereços, com a produção e com os atores (a parte viva do teatro – o respeito deve ser mútuo). "Tudo informa luz". Em "Assim é se lhe parece", Wilker se levantava, dizia poucas e boas e saía de cena. Um dia, num ensaio, antes de sair de cena ele deu uma parada, olhou para trás e aí saiu. Aurélio então fechou uma luz no rosto dele quando ele olhava para trás.



Para Aurélio, "o iluminador é um privilegiado, porque tudo informa luz". Mas ele "pode acabar com um espetáculo".



Iluminar é mostrar o trabalho dos outros e é uma arte que deve estar integrada com todos os elementos cênicos.



"A luz só acontece onde ela reflete". Aurélio falou o princípio da fumaça volátil (de uma máquina quente) e da fumaça de uma máquina de gelo seco (que é uma fumaça fria que fica em baixo, numa proximidade de 30cm do chão) é este: a luz se reflete pelas micropartículas do ar desenhando o caminho da luz.



"Tem cenário? Tem luz. O cenário determina muita coisa". Iluminar um cenário é mostrar a cenografia na sua plenitude. Quando Aurélio estava começando, Yan Michalski elogiou sua luz mas disse que faltava a luz da continuidade cenográfica, a qual Aurélio explica ser "aquilo que o público vê numa mensagem subliminar". Aurélio percebeu que tinha uma cena em que a personagem abria a porta, e que ele não colocou um refletor para fazer a luz que vinha de fora. Agradece Yan pela crítica. Disse que se um personagem sai de cena dizendo que vai para a cozinha, ele com certeza coloca um recorte de luz como se houvesse uma cozinha na coxia. Falou das luzes cenográficas, que pode ser um abajur, um lustre ou até uma janela.



Há uma vantagem no cinema, que é o direcionamento da atenção do espectador. Já no teatro, a que o Aurélio chama de "arte viva", são os artifícios da iluminação que sublinham a ação principal, que orientam o olhar do público. Já as luzes laterais e a contra luz sublinham o volume.



A respeito do foco, conta que, trabalhando com Aderbal, foi fechar um foco apagando todo o resto. Aderbal lhe disse "mas Aurélio, o cenário continua lá". Aurélio então manteve a contra-luz e nunca mais, a não ser que exigido para troca de cenários, usou um foco eliminando a locação. Um aluno observou que em "As Polacas", há um foco em um buquê de rosas durante todo o espetáculo. Aurélio citou a frase: "Aurélio detesta B.O.", frase que já foi até usada em cena no espetáculo "Bárbara não lhe adora". Lembra que "iluminar é mostrar o trabalho dos outros", o que não diminui o valor de seu trabalho, mas o enobrece. "Tudo informa luz".



Segundo Aurélio, o iluminador deve ser dotado de sensibilidade, criatividade e técnica. "O dia em que minha criança morrer, eu paro de fazer luz".



"O mínimo que podemos fazer é o melhor".

sábado, 12 de novembro de 2011

Tipos de Refletores




"No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra porém estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Disse Deus: haja luz; e houve luz. E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. Chamou Deus à luz Dia e às trevas, Noite. Houve tarde a manhã, o primeiro dia."



E da escuridão fez-se a luz.


"Frases do Aurélio: só existe luz quando nós temos a sombra". Estou fazendo a Oficina de Iluminação Cênica com nosso amado mestre, Aurélio de Simoni. Desde quando fui estagiária com ele, ele sempre foi cheio de ensinamentos e frases iluminadas. As chamadas "frases do Aurélio", ele diz, revelam a forma como ele vê o teatro, ou ao menos o que o faz prazeroso de ali estar, ou seja, não apenas a executando sua função. Outra de suas frases: "Quanto maior o conhecimento técnico, mais asas à sua criação". Como estou a anotar todas as aulas da oficina, vou dividir aqui alguns dos conhecimentos que estou apreendendo.



Para começar, o básico do trabalho do iluminador, conhecer os tipos de refletores e suas especificidades.



Aurélio mostrou nas Dicas de Iluminação, de Valmir Perez (UNICAMP), os tipos de refletores mais utilizados no Brasil:



PC (plano-convexo)



Sua lente é no lado de dentro plana e no lado de fora convexa. Ele é bipino. Tem os Bandós, que no inglês se chamam Barn doors, que se abrem e se fecham para determinar a área de atuação da luz emitida.



Para luz geral, se manifesta numa luz mais equalizada. Já para os banhos, a equalização é menor.



Emite uma luz dura, se sem difusor, e uma luz soft quando com difusor.



Usando como filtro o Silk, se as estrias são verticais, a luz é difundida na horizontal e se elas são horizontais, a luz se difunde na vertical.



Existem luzes de até 40W, cujo filamento de tungstênio fica no vácuo e lâmpadas de até 40W em cujo bulbo há argônio. Mas a luz de maior intensidade é a Halógena, em cujo bulbo, de quartzo, há gás halogênio.


A luz do PC é mais definida, a área de atuação fica bem delimitada, mas não tanto quanto a luz do Elipso.



Se a lâmpada for de 500W, a carcaça é de porte menor. Se for de 1000w, o chassi é maior.



Se a lâmpada se colocar mais próxima da superfície refletora, a área de atuação do foco será maior. Conforme a luz vai se aproximando da lente, a abertura do foco vai se fechando e ganhando mais intensidade (maior concentração)



Possui a alça de sustentação e o caixilho (o porta-gelatina)



Fresnell



O Fresnell assim se chama pois sua lente foi inventada por Augustin Fresnell.


Possui o mesmo chassi do PC, também com bandós para recorta a luz, porém sua lente é plana e possui círculos concêntricos, os círculos eliquodais.



Sua luz é intensa no centro e conforme vai ganhando abertura vai diminuindo num degradê. Não é definível onde a luz acaba. É uma luz mais suave, mais difusa.



Scoop



Muito utilizado na fotografia, é uma parábola refletora que difunde a luz em quase 180º, sendo uma luz bastante dispersa.



PAR



Parabolic Aluminized Reflector de diâmetros 64, 56 (Loco light – utilizada em locomotivas), 38 (o Pin Bean que emite um facho cilíndrico) ou 20, cada um com seu ângulo de espelhamento.



Seu foco é ovalado (exceto a pino) e muito brilhante.



Não abre nem fecha foco. Seu recurso são as diferentes lentes:



FOCO 1 (VNSP – Very Nerrow Spot) emite o foco mais fechado. A lente é lisa e transparente.
FOCO 2 (NSP – Nerrow Spot) difunde um pouco mais a luz. Sua lente é fosca.
FOCO 5 (MFL – Medium Fluid Light) difunde mais a luz. Sua lente possui estrias, raias.
FOCO 6 (WFL – Wide fluid Light) difunde mais ainda a luz. Sua lente possui mais estrias, raias.



Conforme se ganha no aumento do diâmetro de alcance, se perde em definição do foco.


Exemplo de Lâmpada PAR é o Sealed Bin, o farol do fusca. A lâmpada PAR surgiu, tal qual como conhecemos hoje, em 1956. É o principio do farol de carro: uma unidade é composta por uma lâmpada, o espelhamento e a lente e se ela queima, todo esse conjunto deve ser jogado fora.


Há 20 anos, o preço de uma lâmpada PAR era muito elevado, e sua vida útil era da apenas 400 horas (metade do que é hoje) e caso ela queimasse, trocava-se apenas a lâmpada de quartzo por uma nacional muito maior, e em consequência, haja visto que a eficiência do conjunto é proporcional à pontualidade da fonte luminosa rumo ao ponto foco da parabólica, sua eficiência caía 60%. A esta, dava-se o nome de lâmpada ÍMPAR, que demonstra ignorância a respeito da origem e do funcionamento da lâmpada PAR, nome entendido por muitos pelo fato de elas se ligarem de duas em duas, 120v + 120v, ao passo que a ímpar era ligada individualmente em 240v.



Elipsoidal



A curvatura geométrica do espelhamento (área de reflexão) é uma elipse. Tem uma (o liquoidal) ou duas lentes que se movem para abrir ou fechar o foco. A luz é desenhada antes das lentes, através dos obturadores de luz que são as palhetas de corte - as facas, a íris (diafragma) e os gobos (máscaras de efeito) que ficam antes do tubo da lente. A imagem produzida é invertida, de forma que para se cortar a luz do lado direito da luz, fecha-se a faca da esquerda, e vice-verso, e para se cortar a luz em cima do foco, fecha-se a faca de baixo.



A lâmpada do elipsoidal é dicróica, ou seja, seu espelhamento é multifacetado.



Existem ETCs de 05 a 90 graus (ETC – Eletronic Theater Control – empresa americana X Telém –empresa brasileira). Quanto menor a abrangência maior a intensidade (concentração).


Ele pode substituir o PC e o Fresnell, desfocando um pouco para substituir o primeiro e desfocando mais para substituir o segundo.


Moving Light


Inicialmente, Moving Mirrow, o refletor emitia uma luz parada em direção a um espelho que se movia, e assim, refletia uma luz em movimento, de acordo com a lei da física de que o ângulo de incidência é igual ao ângulo de reflexão.



Sua lâmpada é de disparo, logo, fica acesa o tempo todo e sua entrada e saída é determinada pelo diafragma que se abre e se fecha.



Depois vieram os Moving Heads, que emitiam dois tipos de luz em movimento: o Spot (através da lente PC) e o wash (através da lente Fresnell)



Ciclorama / Soft light / Set light



Os três são refletores para se iluminar o ciclorama. O Soft e o Set light são refletores sem lente e a luz é bastante abrangente e assimétrica para banhos de luz.


Um pequeno refletor, chamado Wall-Washer, iluminava os fundo cenográficos da TV. Com a única função de iluminar sets, recebeu o nome Set Light, e pode ser encontrado nos tamanhos pequeno, médio e grande.


Mini-brut



Lâmpadas PXE usadas para iluminar a platéia.




Canhão (Follow Spot/ seguidor)


Pressupõe um tripé e um operador. Sua lâmpada é de disparo, de forma que já deve estar acesa antes de se abrir a íris para se abrir o foco. Ele tem duas lentes, duas facas (palhetas de corte).


O Canhão seguidor tem características parecidas com a dos Elipsos, porém tem ótica mais sofisticada e corpo mais robusto, chegando a pesar 45kg.



LED (Diodo Emissor de Luz)


Não é da realidade teatral brasileira ainda, pelo alto preço. Ela não tem filamento e sua vantagem está na redução de consumo e baixa emissão de calor. Ela tem as três cores-luzes primárias, Red, Green e Blue (RGB) a partir das quais muda a cor de sua luz. Porém, a temperatura-cor de seu branco não é como a de uma luz de filamento, e ela ainda não é dimerizável e não é possível uma mudança lenta de uma cor para outra.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quem sou eu - Bia Kleber

Olá!
Meu nome é Bia Kleber e eu sou a mais nova colaboradora do Blog do Aurélio. Tenho 25 anos e sou de Londrina (PR), onde comecei a fazer teatro com 12 anos de idade, na Escola Municipal de Teatro da FUNCART, onde estudei e fiz peças até os 15 anos. Então fui para os EUA, fazendo um curso técnico de teatro no Southern Vermont Carreer Center por um ano. Voltei e vim para o Rio de Janeiro, ingressei na CAL, onde fiz um ano do curso profissionalizante junto com a Manu Berardo, que foi onde nos conhecemos. Segui para a UNIRIO, onde estudei por quatro anos e meio o Curso de Licenciatura em Artes Cênicas. Fiz várias peças, tive aulas que marcaram minha trajetória teatral e artística. Fiz estágio dando aulas na Casa de Custódia Frei Caneca. Estagiei com Paulo Trajano, em suas aulas de Expressão Corporal na CAL, com Marco Rodrigo, em sua Oficina de Interpretação para TV e com Analu Palma, num trabalho com atrizes cegas. Danço Butô e dei uma oficina de teatro-dança Butô para a Cia. de Atores Invisíveis, na Fundição Progresso. Faço pós-graduação no Sistema Laban/ Bartenieff na Angel Vianna. Conheci o Aurélio através da Manu. Numa peça dirigida por Ivan Fernandes, eu era stand-in e comecei a acompanhar os ensaios. Percebi a falta dos adereços cênicos em vésperas da estréia e me ofereci para suprir essa falta. A luz dessa peça foi feita por Aurélio, e não me esqueço dele falando no camarim no dia da estréia: "Faço teatro há 30 anos e sei que tem gente que é de teatro e gente que não é de teatro. Você é uma pessoa de teatro." Isso foi em 2006, e eu comecei a estagiar com Aurélio. A primeira peça foi em Niterói, também não me esqueço da viagem na barca com ele. A peça era "Alarme Falso" com Eri Johnson. Aurélio sempre muito atencioso e dizendo "se você não souber de alguma coisa que você vir ou ouvir, PERGUNTE". Depois o acompanhei em "Isadora Duncan" com a Letícia Spiller, em que passei 25 horas ao lado do mestre Aurélio pois após a montagem eu fiquei para assistir ao Aurélio gravando a luz. Também acompanhei o seu trabalho em "Macbeth" e "The Cachorro Manco Show" de Moacir Chaves e a bela luz de "O Baile", direção do José Possi Neto. Fiquei ausente do Rio por alguns anos por questão de saúde, mas agora voltei e estou fazendo a Oficina de Iluminação Cênica com Aurélio, produzida pela EFAL, e também a Oficina de Cenografia com Hélio Eichbauer no Dulcina. O teatro engaja meu ser como um todo, respiro arte e sem ela minha vida seria sufocante. Acompanhar grandes mestres da arte sempre foi uma forma de crescer como artista e como pessoa, e acompanhar o Aurélio é ter acesso não só à grande arte que ele constrói mas também ter acesso à história viva do teatro neste país, pois o "velho" (modo como ele se refere a ele mesmo) tem muita história para contar. E conta, viu? Estar com ele é sempre um aprendizado. Só tenho a agradecer ao mestre, com carinho. Obrigada por ser essa imensa generosidade que você é, Aurélio. Beijos para você e para todos que por este blog buscam um pouquinho de sua maestria.
Bia.

domingo, 23 de outubro de 2011

Concepção de Antoine sobre a arte da iluminação

André Antoine(1858-1943), encenador naturalista francês moderno. Participou da legitimação da encenação como arte no início do século XX, quando o diretor começa a conceber o espetáculo a partir de uma unidade estética. A iluminação está começando a ser utilizada como parte do projeto estético do encenador, ou seja, deixa de servir apenas com intuito funcional para ser concebida como arte.

Referências do período:
Na economia: Capitalismo- objetos com valor de uso e valor de troca. Arte como produto.
Cotidiano: Lâmpada, automóvel, telefone, avião.
Na arte: Naturalismo/ Realismo/ Belle Époque/ Impressionismo
Na literatura: Baudelaire, Zola, Guy de Maupassant.
No teatro: Dumas , Ibsen, Antoine.

LEMBRANDO que a primeira lâmpada comercializável foi inventada em 1879! Thank you Sir Thomas Edison.

À seguir trecho do livro Conversas sobre a Encenação (Ed 7 Letras) em que Antoine expõe sua visão sobre a arte da iluminação:

"E agora vamos à luz!
Aqui a batalha continua sempre viva, e o espírito de Sarcey ¹ ainda se agita. A maioria dos encenadores- com exceção de alguns efeitos de noite evidentemente indicadas no texto- serve-se ainda da luz brutal e crua da ribalta e das lâmpadas no máximo de suas potências.
Entretanto, os equipamentos disponíveis vêm sendo aperfeiçoados admiravelmente a cada dia. Encontramo-nos aqui longe dos tristes candelabros, velas, candeeiros e do gás, visto que após sua origem o progresso foi constante e ininterrupto.
É que a luz é a vida do teatro, a grande fada da decoração, a alma de uma encenação. Somente ela, inteligentemente manipulada dá a atmosfera, a cor de um cenário, a profundidade, a perspectiva. A luz age fisicamente sobre o espectador: sua magia acentua, sublinha, acompanha maravilhosamente a significaçao íntima de uma obra dramática. Para obter magníficos resultados não é preciso temer administrá-la, espalhando-a de forma desigual.
O público, apesar de exclamar diante de um belo cenário habilmente iluminado, ainda reclama quando não consegue distinguir nitidamente o rosto e os mínimos gestos de um ator de sua preferência. Conhecemos sua repugnância por esses crepúsculos, cuidadosamente criados, que longe de incomodar sua percepção a assegura, sem que se dêem conta. Devemos persistir e não fazer concessões. Um dia teremos razão, e até mesmo a multidão acabará por compreender ou sentir que, para constituir um quadro, são necessários valores e harmonias que não podemos obter sem sacrifícar certas partes; ela reconhecerá que assim ganha uma impresão geral mais profunda e mais artística.
Não quero dizer com isso que seja necessário impor ao público um a priori, como esses efeitos de luz demasiado violentos, dos quais os teatros alemães ou ingleses abusaram e que no início nos tinham seduzido pela sua atividade insólita. A profusão, o emprego repetido das projeções, feriria rapidamente o olho do espectador, e esse novo sistema seria tão insuportável quanto o antigo. Mas não devemos temer suprimir, quase sempre a exemplo dos estrangeiros, a luz da ribalta, tão falsa, tão deformadora e que, empregada inteligentemente, não será nunca a principal fonte, mas uma parte discreta e imperceptível da iluminação total." 

domingo, 9 de outubro de 2011

Técnico ou Artista?


 O post deste mês foi extraído do site : http://www.equipashow.com.br e que eu resolvi compartilhar com todos aqui pois levanta uma questão bastante pertinente a nós que trabalhamos com Iluminação. Afinal, somos técnicos ou artistas? Qual sua opinião?

Abaixo o texto na integra:


Trabalho com SONORIZAÇÃO e ILUMINAÇÂO DE SHOWS, sou TÉCNICO ou ARTISTA? Eis a Questão...


Romeu Gomes      

As profissões da área de eventos são técnicas ou artísticas, segundo a visão do CREA são técnicas e devem ser fiscalizadas pelo órgão e sujeitas a apresentação do ART, porém, segundo alguns profissionais do setor, são artísticas e cabe a Delegacia Regional do Trabalho DRT, ao código civil,e ao código de defesa do consumidor fiscalizar a prestação de serviços na área de eventos. Enquanto uma legislação específica ao mercado de eventos não é criada, saiba quais são as leis que regulamentam ou que são mais aceitas como as regentes do setor.
Observando um evento de forma global, as empresas que prestam serviços nesta área como sonorização, iluminação, montagem de palcos e tendas, locação de gradis e alambrados, arquibancadas, segurança, locação de infra-estrutura e do espaço físico para a organização de eventos, prestam um serviço técnico ou artístico? Essa discussão é palco de recentes brigas judiciais e discussões sobre diferentes pontos de vista que envolvem documentação, responsabilidade legal e fiscalização do setor de eventos, que até o momento não conta com uma legislação específica e nem orgão independentes para sua fiscalização.
Segundo a legislação, a lei 6.533/78 regulamenta a atividade técnica e artística de profissionais em espetáculos e diversões, define como artista, o profissional que cria, interpreta ou executa obra de caráter cultural de qualquer natureza, e como técnico, o profissional que, mesmo em caráter auxiliar, participa, individualmente ou em grupo, de atividade profissional ligada diretamente à elaboração, registro, apresentação ou conservação de programas, espetáculos e produções. Que é aplicada, às pessoas físicas ou jurídicas que tiverem a seu serviço os profissionais técnicos ou artistas, para realização de espetáculos, programas e produções. Estes profissionais devem estar devidamente registradas no DRT de âmbito nacional, e que para este registro é necessário diploma no segmento de atuação, e também um certificado de capacitação profissional fornecido pelo sindicato. E define também as responsabilidades dos profissionais e dos empregadores, juntamente com todo o regimento e especificidade das Leis do Trabalho.
O decreto 82.385/78 regulamenta que o exercício da profissão de artista e técnico em espetáculos é disciplinado pela lei 6533/78, que é aplicada às pessoas físicas ou jurídicas que agenciem colocação de mão-de-obra de Artista e Técnico em Espetáculos, e define a qualificação de profissionais como Aderecista, Animador, Assistentes em geral, Produtor, Atores, Iluminadores, Cenógrafos, Cenotécnico, Contra-Regra, Diretores, Coordenadores, Dublador ou Interprete, Editor de Áudio, Sonoplasta, Fotografo, Eletricista de Cinema, Figurantes, Figurinista, Maquiador de Cinema, Microfonista, Operadores de Câmera, Geradorista, Operador de Áudio, Pintor Artístico, Técnico em Efeitos Especiais Cênicos, Técnico de Manutenção, Técnico de Som, entre outras.
Também, temos a lei 5194/66 que regulamenta as profissões de engenharia e arquitetura, e diz em seus termos que é profissional de engenharia e arquitetura, quem realiza empreendimentos de cunho social ou humano envolvendo recursos naturais, meios de locomoção e comunicação, edificações serviços e equipamentos nos seus aspectos técnicos e artísticos, e exige que para exercer essas profissões é necessário diploma de faculdade ou escola superior em engenharia, arquitetura ou agronomia oficiais ou revalidados por uma instituição oficial ou que a critério dos CREA´s tenham seu registro temporário. Assegurando que o título de engenheiro ou arquiteto deva estar acrescido obrigatoriamente das características de sua formação, e que as pessoas jurídicas, para usarem estes títulos devam ser em sua totalidade constituídas de pessoas que possuam tais títulos, e em sua maioria registrados nos CREA´s. Define também que é ilegal que pessoas físicas ou jurídicas exerçam profissões ou atribuições reservadas a estes profissionais, e que é proibido emprestar seu nome a organizações, firmas ou pessoas executoras de obras e serviços sem sua real participação nos trabalhos, define também que essas atribuições são, planejamento ou projeto de obras e estruturas, estudos, avaliações e pareceres e avaliações de cunho técnico; fiscalização e direção de obras e serviços técnicos; E define que cabe ao CONFEA e aos CREA´s a fiscalização desse tipo de projeto ou obra, cabendo especificamente aos CREA´s fazer cumprir a presente lei, e as resoluções deste, e criar inspetoria e fiscalização das obras e projetos. Também, é previsto na lei que cabe ao CREA só poderá exercer a profissão quem estiver registrado no CREA de sua região de trabalho.
E a lei 6.496/77 que cria a ART – Assinatura de Responsabilidade Técnica, que diz em seus termos que todo contrato de execução de obras e serviços de engenharia, arquitetura e agronomia estão sujeitas à ART, e que esta define para os aspectos legais os responsáveis tecnicos pelo projeto, e que a falta da ART sujeita o profissional ou empresa a multa, bem como define os valores e critérios para registrar a ART.
A briga começa, pois os CREA´s entendem que a prestação de serviços na área de eventos é uma atividade de engenharia e arquitetura, que representa risco a sociedade, e alguns profissionais dizem que é uma atividade regulamentada como artística, conforme definido acima. Algumas empresas de sonorização e iluminação ganharam na justiça o direito a não estarem obrigadas a exercer a ART nem se vincular ao CREA de sua região. As empresas se defendem, pois alegam que o problema não é a obrigatoriedade da ART, nem quem pode ou não emitir esse documento, mas sim que não é feita uma efetiva fiscalização das instalações, o que está gerando um comércio de ART simplesmente para se protegerem das multas e das notificações, o que gera um aumento no custo da prestação de seus serviços, sem um real beneficio à sociedade ou a segurança.
É ressaltado que a responsabilidade civil de empresas que exerçam trabalhos na área de eventos e também de outras empresas e prestadores de serviço se dá pelo Código Civil Brasileiro e pelo Código de Defesa do Consumidor – Responsabilidade Civil das Pessoas Jurídicas, e que todos os profissionais que prestam serviços técnicos devem estar devidamente registrados na DRT para o desempenho de suas funções. Enquanto que o CREA é o responsável pela fiscalização e por todas as decisões de primeira instância que envolvam as áreas de Engenharia e Arquitetura, bem como pela manutenção e registro das ART´s, e que os profissionais que desempenhem estas funções devem ser devidamente registrados e com seu cadastro ativo junto ao CREA de sua região.
Com este artigo, não esperamos defender nenhum dos pontos de vista, mas esperamos que os profissionais e empresas do setor de eventos, juntamente com as entidades de classe e os órgãos governamentais lutem para que sejam propostas leis específicas e que se criem entidades capacitadas a fiscalizar as prestadoras de serviços do setor e cada dia mais melhorar a segurança do público e dos profissionais e artistas. Que essa briga, deixe de ser simplesmente voltada a quem cabe a receita gerada pela expedição da documentação, ou, o custo operacional de se manter uma pessoa responsável pela documentação e pela responsabilidade, ou pior que isso, que se estimule um mercado ilegal de comércio de ART´s e Profissionais que vendem seu nome ou seu cargo, simplesmente pelo aspecto monetário, sem sequer saber se essa documentação vai ou não colocar em risco as pessoas envolvidas. E que as entidades responsáveis pelas fiscalizações tanto no cunho da execução da prestação do serviço, quanto no aspecto humano das relações trabalhistas e as responsabilidades civis e criminais das empresas envolvidas na realização e execução das obras e também das entidades fiscalizadoras, não sejam somente voltadas a saber se as receitas provenientes de valores pagos pelos profissionais e pelas empresas a suas respectivas entidades de classe e a órgãos fiscalizadores; mas que também avaliem a segurança, e o risco do patrimônio humano, envolvido nos locais efetivos onde se realizam os eventos, se todas as medidas cabíveis estão sendo respeitadas e somente depois, verifiquem se os valores estão devidamente recolhidos.

FONTES:
www.jusbrasil.com.br – textos integrais das leis apontadas na documentação;
Revista Backstage – N163 – Pg. 30 a 37;
www.creasp.com.br – Legislação e dados sobre ART;
www.sated.com.br – Legislação e registro para DRT;
www.mte.gov.br – Ministério do Trabalho e Emprego;